terça-feira, 29 de janeiro de 2008

IPTU- Prefeito em dívida com o Rio.

IPTU - Um prefeito em dívida com o Rio.
Em frente ao computador, divertindo-se em escrever notas para seu ex-blog e a responder e-mails de jornalistas e moradores do Rio com uma infinidade de pedidos, queixas, críticas e sugestões, o prefeito Cesar Maia conta os dias para encerrar o mandato. Passa a faixa ao sucessor em 1º de janeiro de 2009 e, com certeza, fará um discurso de prestação de contas em que a coluna de ganhos para a cidade durante sua gestão será extensa. E a de débitos estará ausente. Seguramente vai soletrar, orgulhoso, o volume de dinheiro que deixará no caixa. E esquecer de enumerar a quantidade de problemas e de missões inconclusas ou relegadas de seus oito anos de gestão.
O ano eleitoral nem começou e a cidade, inconformada, cobra a fatura das omissões administrativas de Cesar Maia. A adesão ao boicote ao pagamento do Imposto Predial e Territorial Urbano será medida até o dia 7, quando vence a fatura para a quitação do imposto em cota única. Tradicionalmente, a prefeitura embolsa, na data aprazada, quase metade do total previsto de arrecadação com o IPTU.
No mesmo dia, 48 horas depois do fim oficial do carnaval, as associações de moradores das zonas Sul, Norte e Oeste que se uniram à campanha para contestar o imposto em juízo ou pagar tudo, de uma vez, com multas, em novembro - depois de apurados os votos nas urnas eletrônicas - tomarão conhecimento da dimensão do movimento que encabeçaram, desencadeado por uma série de reportagens do Jornal do Brasil, a partir do dia 4.
Qualquer que seja o resultado, as entidades não pretendem arrefecer o ânimo. Revitalizadas pelo descaso do alcaide com o resultado da primeira passeata organizada na orla do Leblon, assumiram-se como os 300 de Esparta e, guerreiros da cidadania, marcaram para 17 de fevereiro um novo ato, no Méier, para manter a união das tropas que arregimentaram contra o pagamento, pela via legal, do tributo. E conquistar reforço na cidade.
Argumentos não faltam e novos são adicionados a cada dia de inadimplência da prefeitura com o Rio. Em temporada de chuva, e não precisa ser tempestade, 1.200 buracos despontam na cidade diariamente, apenas 350 são cobertos, nem sempre da forma engenhosamente certa ou com asfalto de primeira. Semáforos que não funcionam, luzes que não se apagam durante o dia ou não acendem à noite infernizam motoristas e pedestres. Em contrapartida, lombadas eletrônicas e radares não param de registrar a velocidade dos automóveis um segundo. E a indústria de multas fatura alto para o município.
O trânsito congestiona sem fiscais ou regras, assoberbado por ônibus e vans que atropelam leis e elevam ao quadrado o risco de acidentes com mortos e feridos. Nas calçadas da Avenida Atlântica, o espaço para transeuntes virou esmola. Os carros estacionam como e onde querem sob o mando e ganho de porteiros e funcionários de hotéis de luxo.
Moradores de rua transformam parques em dormitórios, afastando crianças e idosos de áreas de lazer públicas, infectando areia com fezes humanas. Animais entram e saem e deixam nos espaços verdes a herança de doenças que transformam seres sadios em pacientes médicos. Brinquedos e equipamentos são furtados, quebrados ou destruídos. Sem reposição de peças, sem higiene, praças ficam desertas de alegria.
Nos bairros, as calçadas testam o equilíbrio e atenção de quem passa, com pedras em desnível, buracos, cimento ondulado, sujeira acumulada e mendigos dormindo. E mais tapetes, barracas e enquadrados feitos de banca por camelôs que negociam de tudo.
Nos hospitais municipais impera a carência: de médicos, de enfermeiros, de medicamentos, de leitos. E grassa a corrupção na compra de equipamentos e licitações, como mostrou reportagem do JB publicada na edição de quarta-feira.
A quantia de R$ 1,4 bilhão prevista de arrecadação com o IPTU este ano deveria financiar a extensa lista de dívidas do prefeito Cesar Maia com a cidade que administra. É o que cobram as associações de moradores e cada habitante da cidade. Que o prefeito cumpra sua parte. E não passe o débito para o seu sucessor.

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